SEGUNDA PARTE DO ARTIGO: SIMBOLIZAÇÃO E SUBLIMAÇÃO: REFLEXÕES E CONJECTURAS

AS SUBLIMAÇÕES, FINALIDADES SEM FIM

Como dissemos acima, Freud deu o nome de sublimação ao processo que explicaria estas atividades humanas que não possuem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento propulsor na força da pulsão sexual, que ele chamou libido.  Freud descreveu como atividade de sublimação principalmente a atividade artística  e a investigação intelectual. Segundo Laplanche e Pontalis, “uma pulsão é sublimada na medida em que é derivada para um novo objetivo não sexual e em que visa objetos socialmente valorizados”(pag. 495). Por estas definições antevemos que a sublimação precede a simbolização. Vejamos porque:

Em primeiro lugar, a sublimação desde o início coloca a questão de suas relações com a simbolização. Em que sentido ela  é a condição da simbolização e não sua consequência?  Porque sem a sublimação estaríamos presos a uma sexualização concreta do pensamento. Isto pode acontecer em um certo grau nas psicoses e neuroses, mas a simbolização precisa ser precedida por uma sublimação do sexual.

 Freud nos diz que é a insatisfação sempre presente em tudo que realiza que leva o sujeito a buscar algo mais. Diante da ameaça de desprazer, ele é levado a buscar outras percepções capazes de suscitar alguma satisfação. Freud deixa muitas questões em aberto sobre como alguém se torna capaz de repressão e de sublimação. Em Leonardo da Vinci,  ele afirma que outra pessoa que não ele talvez não tivesse conseguido livrar da repressão a maior parte da sua libido sublimando-a numa sêde de conhecimentos. Porque uma outra pessoa, sob as mesmas influências, poderia ter sofrido perturbação permanente de sua capacidade intelectual ou adquirido uma disposição incoercível para a neurose obsessiva.

Não podemos ter dúvida, no entanto, de que, para as pessoas que têm esta capacidade, as transformações quantitativas  e qualitativas da libido permitem a liberação de um gozo superior. E não será isso que  Freud vai chamar de “estética de orientação econômica”? Nesta linha de pensamento a dessexualização aparente da obra de arte, por exemplo, corresponde a uma transformação qualitativa da libido. Ora, todo este processo tem claramente uma dimensão sublimatória. Esta capacidade de renunciar à satisfação imediata, fora a inevitável sequela de desprazer, traz também ao ego um ganho de prazer, uma espécie de satisfação substitutiva.  Ela intervêm no aparecimento do desejo e do prazer, esta “essência do sexual” que Freud interroga ao longo do texto dos Tres Ensaios.

Vejam que claramente, Freud não dissocia sublimação do prazer sexual. Apenas mostra que a insatisfação sempre presente em todas as atividades sexuais humanas leva  à busca de uma nova gênese do sexual. A palavra dessexualizado só aparece sob a pluma de Freud quando ele introduz a pulsão de morte. E ele vai mostrar que a dessexualização não é mais um simples abandono do sexual mas a destruição do mesmo. A idéia que defendo nesta apresentação é a de que  a sublimação não é o resultado final de um movimento de afastamento, de elevação, de depuração do sexual bruto inicial, mas é uma derivação da pulsão sexual, que respeita a natureza das pulsões sexuais, a plasticidade de sua natureza e não se afasta dela.

 Em Bion e Winnicott, o termo “sublimação” desaparece, sendo substituídos por “criatividade”, “jogo”, ”cultura”, “simbolização” ou “conhecimento”. Mas fica implícito nestes autores que o essencial do tratamento analítico é a busca de mudança psíquica. Quem busca análise é para mudar, para ter mais liberdade. Para Freud, toda análise deveria tornar o analisando mais capaz de fazer sublimações.

Se a libido é a força motriz da sublimação, proponho pensarmos um pouco neste conceito. Assim a define Freud:

 “Libido é uma expressão tirada da teoria da afetividade. Chamamos assim à energia , considerada como uma grandeza quantitativa – embora não seja efetivamente mensurável – das pulsões que se referem a tudo o que podemos incluir sob o nome de amor”( S. E.Vol XVIII,pag. 90). Ora, o que é o amor? Não estaria também o conceito de sublimação diretamente implicado nesta definição? Freud vai dizer ainda que, se a pulsão sexual se situa no limite psicossomático, a libido designa o seu aspecto psíquico. É a manifestação dinâmica da vida psíquica da pulsão sexual. É como energia nitidamente distinta da excitação sexual somática que o conceito de libido é introduzido por Freud nos seus primeiros escritos sobre a neurose de angústia (1886). Nestes primeiros trabalhos, Freud vai falar de uma insuficiência de “ libido psíquica” provocando a permanência da tensão no plano somático, e os sintomas sendo os reveladores  da falta de elaboração psíquica. Portanto, Freud está relacionando a angústia com o sentimento de perigo diante da força das pulsões instintuais em estado bruto.

 O fato é  que  a psicanálise nos ensina que sexualidade humana é vivida por uma mente. E não nos esqueçamos de que ela traz a marca de uma renúncia ao primeiro objeto de amor. Ela não se reduz ao simples e puro prazer do ato reprodutivo, ela está presente na forma como pensamos e como elaboramos todo processo de luto pelos objetos perdidos.  Se Freud vai concluir, desde a Traumdeutung até os últimos trabalhos, que agimos movidos por desejos infantis insatisfeitos, não será necessário pensarmos que a sublimação é aquilo que é criado por cada um de nós para dar conta da dor e do vazio? O que seria da vida humana sem as criações culturais? Ela ficaria despojada de qualquer sentido, estaríamos perdidos na realidade de que somos eternamente desejantes e incessantemente  despojados do que amamos. Neste sentido, a sublimação é a forma que temos de lidar com os instintos de morte. A sublimação é a companheira inseparável de Eros, que faz ligações e une sentidos. Como vimos acima, Freud nos mostra que são os componentes mesmos da pulsão sexual, na medida em que o caminho é deixado livre pelo recalcamento, que possuem esta capacidade de sublimação, de mudança de sua finalidade e de seus objetos. Freud, nos Tres Ensaios, insiste na sentimento  nostálgico que nos acompanha pela perda do primeiro objeto de amor. Na verdade, a capacidade de adaptação à vida depende de como cada um elabora esta perda do objeto inicial, perda precursora da renúncia edípica e dos aspectos narcísicos. Porque o narcisismo não é plástico, ele tende a imobilizar a libido nas fronteiras do eu. E a sublimação tende a buscar a atividade de transformação, de transposição, de metamorfose. E todas estas operações são indissociáveis da extraordinária plasticidade das pulsões parciais. Mas, é preciso repetir, ainda que mudem de finalidade e de objeto, as pulsões primitivas jamais mudam sua natureza.

É através da sublimação que a criança pode penetrar naquilo que lhe é proibido, permitindo-lhe investir em domínios que ninguém sonharia definir como sexuais, com toda plasticidade possível. Ora, esta possibilidade de transformação, desta mudança de estado que permite às sexualidades primitivas  de se introduzirem no conjunto das atividades humanas, sugere a definição de sublimação, ao contrário, como uma sexualização. Sem sexualização  do pensamento e sem o prazer que ele traz, estaríamos nós a discutir agora? Em que consistia a vida sexual de Kant, quando ele escrevia a Crítica da Razão Pura?

Como Freud escreve no seu texto sobre Leonardo, são os componentes mesmos da pulsão sexual, na medida em que o caminho está livre pela repressão, que possuem esta capacidade de sublimação, de mudança de seu fim e de seu objeto. Mas mudando de fim e de objeto, as pulsões primitivas não se tornam outras senão elas-mesmas. E esta não mudança de finalidade de satisfação pulsional, no coração da sublimação, assinala que a busca do sentido estético e da beleza acabarão sempre por revelar o lado  inacabado, instintivo, sempre imperfeito,  da vida humana.

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