SIMBOLIZAÇÃO E SUBLIMAÇÃO : REFLEXÕES E CONJECTURAS

                       

                                                               INTRODUÇÃO

Há  muitos anos tenho pensado na distância existente entre a descoberta e Freud da presença fundamental da sexualidade no desenvolvimento humano, e a realidade concreta de que o tempo dedicado às atividades sexuais é insignificante diante do que é dedicado às atividades culturais e de sobrevivência. Uma das  respostas importantes dentro da teoria psicanalítica é que ao longo de nosso desenvolvimento, criamos  a capacidade de simbolizar e de sublimar. Isso quer dizer que aprendemos a representar figurativamente uma idéia, um conflito inconsciente. Temos uma linguagem, usamos metáforas, expressamos nossos anseios e nossas dores com expressões simbólicas. Temos acesso ao inconsciente através dos simbolismos que ele utiliza. Tanto que, dentro do pensamento psicanalítico, muitos autores consideram que o simbolismo que interessa em psicanálise, é o simbolismo inconsciente. Os processos de deslocamento, condensação, sobredeterminação, figurabilidade, que tanto estão presentes nos sonhos, nos sintomas e no processo da análise, são processos simbólicos.

De outro lado, a psicanálise descobriu também a existência de fantasias originárias, que são universais, quer dizer , estão presentes em todas as nossas experiências pessoais. Constituem, para Freud, um patrimônio transmitido filogeneticamente. Qual a importância destas fantasias para nosso tema? É que as fantasias originárias revelam a grande curiosidade da criança com relação às suas origens. Ela está desde o início de sua existência confrontada com a necessidade de responder aos enigmas do seu nascimento (que correspondem  às fantasias sobre a vida intra-uterina), do aparecimento de sua sexualidade (fantasias de sedução) e da angustiante percepção da diferença entre os sexos (fantasias de castração).

Estas questões exigiram, assim como a presença ativa das pulsões sexuais, o desenvolvimento da capacidade de pensar. Os processos de sublimação e simbolização, surgiram como aspectos integrantes deste processo de desenvolvimento mental.

Refletindo sobre a origem do progresso do espírito humano, Ernest Jones  assim se expressa: “Se se considera o progresso humano em sua gênese, pode-se ver que ele consiste, não, como se acredita comumente, na simples acumulação do que se adquire, proveniente do exterior, mas dos dois processos seguintes: de um lado da extensão e da transferência do interesse e da compreensão, de idéias mais precoces, mais simples e mais primitivas a outras mais difíceis e mais complexas que, em certo sentido, são a continuação das primeiras e as simbolizam, e , de outro lado, pelo desmascaramento constante de simbolismos anteriores. Estes simbolismos que foram tomados inicialmente como literalmente verdadeiros, se revelam apenas aspectos ou representações da verdade, os únicos que nossos espíritos, por razões afetivas ou intelectuais , eram capazes  de apreender inicialmente.” Isto é, Jones fala da  capacidade do espírito humano de caminhar em direção a verdades cada vez mais amplas e complexas, “embora o campo do simbolizado seja muito limitado: corpo, pais e consanguíneos,nascimento, morte, nudez, e, sobretudo, sexualidade (órgãos sexuais, ato sexual)”. (Laplanche-Pontalis, pag.485). Assim, paradoxalmente, seja em suas fantasias, seja nas suas simbolizações, o que importa para o homem são as questões fundamentais da vida. E a sexualidade está presente em todas estas questões fundamentais.

Vemos, pois, como o simbolismo tem sido importante para que o homem possa dar conta de suas questões sobre a sexualidade. Como isso acontece? Qual a relação entre os processos de simbolização e os de sublimação? A sublimação foi muito menos estudada por Freud que a simbolização.Aliás, ele nunca escreveu um parágrafo sequer sobre ela.  Mas ele sempre esteve de acordo que a sublimação precede a simbolização.

            O ARTIGO DE FREUD SOBRE LEONARDO DA VINCI

 Falarei agora de  um trecho do artigo de Freud sobre Leonardo da Vinci, onde temos um exemplo dos processos de simbolização e de sublimação. Em seguida, trarei alguns pensamentos de autores atuais, sobretudo Jacques André e Jean Louis Baldacci, para pensarmos um pouco sobre a sublimação não como uma dessexualização, mas como momentos fecundos de novos investimentos libidinais.

Em sua obra de 1910, “Leonardo da Vinci e uma Lembrança de sua Infância”, Freud vai citar que existe apenas um trecho nos apontamentos científicos de Leonardo em que ele se refere a uma recordação de sua tenra infância, no qual ele associa suas preocupações com abutres e voos de aves a uma experiência de ter um abutre descido sobre ele em seu berço e fustigado repetidas vezes seus lábios. Freud vai analisar o significado simbólico desta lembrança.

 Em primeiro lugar, ele se pergunta qual o sentido da cauda do abutre nos lábios de Leonardo.  E vai responder que o conteúdo erótico da cauda, “coda” em italiano, é um dos símbolos mais familiares e substitui expressões referentes ao órgão masculino. E a situação, na fantasia, de um abutre abrindo a boca da criança e fustigando-a vigorosamente por dentro corresponde à idéia de um ato de fellatio. Freud comenta como esta fantasia assemelha-se com certos sonhos e fantasias encontrados em mulheres ou em homossexuais passivos. Mas, esta situação não faz senão reproduzir uma situação em que todos nós nos sentíamos confortáveis , quando sugávamos o bico do seio de nossa mãe. O que a fantasia encerra é meramente uma reminiscência do ato de sugar. Freud diz que , mesmo sem ainda compreender porque, esta recordação foi transformada pelo homem Leonardo, numa fantasia homossexual passiva. E a tradição sempre apontou Leonardo como sendo um homem de sentimentos homossexuais.

Mas, por que o abutre? Porque o abutre representava na mitologia um símbolo de maternidade, pois os egípcios , e depois os estudiosos gregos e romanos,  acreditavam que só existiam abutres do sexo feminino.  E que a fertilização ocorreria em certa época do ano em que essas aves se detêm em meio ao vôo, abrem sua vagina e são fecundadas pelo vento. Freud acredita que Leonardo teria tido conhecimento sobre isto. E assim, esta fantasia expressava  que ele também havia sido  tal como uma cria de abutre- tinha mãe mas não tinha pai.

“Assim”, vai concluir Freud, no final do capítulo, “se é verdade que as lembranças ininteligíveis da infância de uma pessoa, e as fantasias que dela resultam, invariavelmente gravam os elementos mais importantes do desenvolvimento mental, segue-se, então, que o fato confirmado da fantasia do abutre, isto é, que Leonardo passou os primeiros anos de vida sozinho com sua mãe, terá exercido influência decisiva na formação de sua vida ulterior.”… “Assim, numa tenra idade tornou-se um pesquisador atormentado pela grande pergunta – saber de onde vêm os bebês  e qual  a função  do pai em sua origem.”  

Mais à frente, Freud vai novamente sustentar o ponto de vista de que o acaso de sua origem ilegítima e a ternura exagerada de sua mãe tiveram influência decisiva na formação do seu caráter e na sorte do seu destino, pois a repressão sexual que se estabeleceu depois dessa fase de sua infância levou-o a sublimar sua libido na ânsia de saber, o que o levou a dedicar-se mais às investigações científicas que à criação de obras de arte e estabelecer sua inatividade sexual para o resto de sua vida.

Este artigo é composto de duas partes. A segunda parte será publicada na segunda-feira, dia 17 de agosto

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