OS DIFERENTES TIPOS DE MENTE EM PSICANÁLISE




O título desta aula levanta questões interessantes. É possível falar em diferentes tipos de mente?  Sendo cada um de nós um ser único e indivisível o que significa falar em tipos de mente desiguais em uma só pessoa? Ou que tipo de divisão mental este título estaria sugerindo? De fato, podemos experimentar os mais diferentes estados de alma. Do mais terrível sentimento ao mais sublime. Mas continuamos a ser indivisíveis.
Seria uma abordagem psicanalítica dos diferentes tipos de personalidade: psicótica, neurótica, borderline, normal? Esta hipótese me parece improvável, uma vez que a evolução teórica da psicanálise já demostrou que todos carregamos em algum grau todos estes tipos, em porções diferentes, predominando mais um ou outro e estabelecendo o grau de normalidade psíquica de cada um.
Ou ainda terá este título a intenção de introduzir reflexões a respeito das tópicas freudianas, com suas diferentes divisões da mente? Isto é, a diferenciação do psíquico em consciente e inconsciente como premissa básica da psicanálise? Pois sabemos que para a psicologia tradicional, apoiada em uma cultura filosófica, é inconcebível a ideia de algo psíquico que não seja também consciente.
Sim, este título fala da grande descoberta da psicanálise: de que a consciência é uma qualidade do psíquico, que pode juntar-se a outras qualidades ou estar ausente. Ele nos introduz em uma visão da mente como composta de uma diferenciação nos graus de consciência, revelação fundante da teoria freudiana.
Vamos, pois, falar dos diferentes estados de mente, alguns tendo a qualidade de consciência e outros não, e dando origem à apresentação das duas tópicas concebidas por Freud.
O termo “tópica” significa teoria dos lugares. Para os antigos, e em especial para Aristóteles, os lugares constituem rubricas, de valor lógico ou retórico, de que são tiradas as premissas da argumentação. Creio que cabe aqui lembrar que Freud sempre esteve ciente da fragilidade do raciocínio filosófico. As ideias abstratas conduzem o pensamento a impasses e contradições lógicas insuperáveis, como defendia Zenão de Eléia, filósofo grego do século V A. C. Freud jamais optou pelo pensamento filosófico como argumentação para suas teorias, e sim pela observação rigorosa dos fatos. Quando ele propõe uma descrição do aparelho psíquico em tópicas, ele nada mais fez que sustentar cientificamente suas descobertas clínicas.
Vejam que estamos em pleno campo da metapsicologia freudiana: a busca de definição dos conceitos teóricos da psicanálise dentro de uma linha de pensamento que parte da observação clínica dos fatos a fim de enquadrar o pensamento psicanalítico dentro do campo científico. Ele desiste mesmo de construir uma teoria anátomo-fisiológica das localizações cerebrais, presente nos seus estudos neurológicos iniciais sobre as afasias, e afirma que é preciso completar o enfoque dos dados tópicos da localização com uma explicação de tipo funcional, que, como veremos, é inter e intrassistêmica ( o ego e suas relações com o id e superego e destes com o ego, assim como do ego com ele mesmo), e que tenta abranger a complexidade do sistema mental.
“A primeira concepção tópica do aparelho psíquico é apresentada no capítulo VII de A Interpretação dos sonhos, de 1900. Esta primeira tópica distingue três sistemas: inconsciente, pré-consciente e consciente, cada um com sua função, o seu tipo de processo e sua energia de investimento”. Entre cada um destes sistemas Freud situa censuras, que inibem e controlam a passagem de um para outro. O termo censura, ou antecâmara, ou fronteira mostram o aspecto espacial da teoria do aparelho psíquico. É importante lembrar que a localização em espaços diversos se conjuga com diferentes funções. Assim tanto o inconsciente, consciente e pré-consciente da primeira tópica quanto o id, o ego e o superego da segunda apresentam diferentes funções e relações entre si.
O aspecto espacial vai ter suas implicações. A memória, por exemplo, é constituída por grupos de representações, que vão sendo arquivadas seguindo uma sucessão temporal (mnem1, mnem 2, mnem3…) a fim de liberar o sistema perceptivo para novas impressões vindas do exterior (Interpretação dos Sonhos,1900, SE pg.194).
 
  GRUPOS DE REPRESENTAÇÕES
 
O que são grupos de representações? O que são “representações de palavra” e “representações de coisa?”
A representação é um termo clássico em filosofia e psicologia para designar “aquilo que se representa, o que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento” e “em especial a reprodução de uma percepção que foi vivida anteriormente”. O problema é que enquanto as representações estão presas, arquivadas, no tópico inconsciente e não podem passar para o pré-consciente, os afetos presentes no sujeito aparecem na forma de sensações (angústia, medo), mas não podem ser compreendidas por ele.
Isto quer dizer que as leis que regem as associações dos fatos registrados na memória possuem uma certa ordenação e, assim, as lembranças não se associam ao acaso. E quando se associam, nem sempre o sujeito é capaz de trazê-las à consciência. Existem fronteiras que precisam ser ultrapassadas para que uma vivência, ou conteúdo psíquico, se torne consciente. Um aspecto importante da definição da memória como grupo de representações, é que uma das finalidade do processo de análise,( este processo de escuta daquilo que o sujeito não pode ouvir dentro de si mesmo, não consegue pensar por si mesmo), é a de tornar as vivências traumáticas representáveis, isto é, pensáveis e recordáveis, promovendo a tomada de posse das importantes experiências pelas quais estamos sempre passando e que formam toda base de nosso aprendizado. Ou, em outras palavras, a função da análise é dar representabilidade aos afetos inconscientes, tornando-os acessíveis à compreensão e elaboração próprios do sistema consciente.
Quando Freud opõe a representação ao afeto, ele quer dizer que cada um destes dois elementos tem destinos diferentes nos processos psíquicos. Na verdade, são dois níveis destas “representações”: “as representações de palavra” e as “representações de coisa”.
 As “representações de coisa”, que caracterizam o sistema inconsciente estão em estreita relação com o objeto concreto, a coisa, a vivência impensável, sem abertura de possibilidades de pensamento. Mas com a análise vai ocorrer a união entre objeto concreto, ou afeto, e seu significante, a palavra que simboliza o objeto e a emoção. (Podemos citar o caso clínico de César Botelha, da menina que não conseguia nomear seu sentimento de desamparo. Ela vivia o afeto, podia mesmo sonhá-lo, mas ela não conseguia “significar” porque ela vivia tanta dor. Através dos caminhos associativos, acompanhados atentamente por César Botelha, eles conseguiram atingir a representação inconsciente patogênica, e colocaram o objeto, que era estar perdida no meio de uma floresta escura e perigosa, ser punida pelas frustrações, ao lado de seu significante: o desamparo diante da dificuldade dos pais em acolhê-la, em ter rêverie).
Outro aspecto importante é que a passagem de energia de um sistema para outro pode ocorrer numa direção normal, “progressiva” ou num sentido “regressivo”.  A progressiva é a que vai do aparelho perceptivo até a ação. E a regressiva é a que acontece nos sonhos, em que os pensamentos, ao invés de caminharem para a ação, vão em direção ao inconsciente até adquirirem um caráter alucinatório, como é a imagem no sonho ou nas psicoses. (O pensamento do analista durante a sessão de análise deve estar predominantemente no sentido regressivo, atingido pelo estado de atenção flutuante, ou “sem memória e sem desejo”, para poder entrar em contato com a angústia inconsciente do analisando).
É preciso ressaltar que esta reviravolta na forma de pensar a mente, introduzindo a noção de lugares psíquicos, não teve por finalidade fazer uma tentativa de localização anatômica das funções. A originalidade da tentativa é “…tornar compreensível a complicação do funcionamento psíquico, decompondo este funcionamento e atribuindo cada função em especial às diversas partes do aparelho.” (Freud, Interpretação dos Sonhos)
A coragem de Freud de trazer à sociedade científica a evidência de que carregamos os mais obscuros desejos como parte de nossa mente e de nossa personalidade, foi ao mesmo tempo um fator de libertação da humanidade, mas também um choque à visão que o homem tinha de si mesmo. A descoberta de conter em si aspectos inconscientes e inatingíveis sem a ajuda de um Outro, foi recebida como a “peste”. Mas, uma vez feita a descoberta não havia mais como escapar. O homem é o ser mais contraditório que existe e o conflito entre desejos não é ocasional, mas perene.
Talvez uma dose de objetividade e de humildade teria ajudado os cientistas da época a perceberem a grande verdade freudiana: “Não somos senhores em nossas próprias casas”. Mas como abandonar preconceitos tão arraigados e que tanto satisfazem nosso narcisismo? Foram preciso décadas para que algumas pessoas pudessem enxergar a descoberta de Freud não como uma afronta, mas como algo libertador, algo que “pode tornar a vida humana menos miserável”. Porque se existe algo que nos dá força e revela todo sentido de nossa travessia é a busca da verdade do que somos. Desenvolvendo capacidade de fugir das quimeras, dos sonhos de grandeza e de superioridade. Se pensarmos bem, o sonho de sermos superiores está na origem de todos os preconceitos e outras tantas tolices. Porque os brancos decidiram que sua cor os torna superiores? O que há de científico nisso? Aliás, os negros é que tem mostrado sua superioridade em desempenho físico e capacidade de servir. Nenhuma raça é superior. Cada uma tem sua capacidade de adaptação no mundo, com aspectos superiores e inferiores.
Mas, deixando estas reflexões a respeito do que tanto tem impedido o homem de receber as contribuições de mentes excepcionalmente dotadas para enxergar os fatos, continuemos com a definição de tópica, segundo Laplanche e Pontalis:
“Tópica é uma teoria ou ponto de vista que supõe uma diferenciação do aparelho psíquico em certo número de sistemas dotados de características ou funções diferentes e dispostos numa certa ordem uns em relação aos outros, o que permite considerá-los metaforicamente como lugares psíquicos de que podemos fornecer uma representação figurada espacialmente.” (Laplanche, pg. 505)
Entre os aspectos que levaram Freud a esta revolução e que ele considera a originalidade de sua proposta, é o fator dinâmico, essencial para a psicanálise, segundo o qual os sistemas estão em conflito entre si. Sobretudo porque Freud vai mais longe e vai colocar toda origem das neuroses e dos sofrimentos psíquicos nos desejos sexuais inconscientes, e, além do mais, existentes desde a mais tenra infância.
                              O ASPECTO GENÉTICO DAS INSTÂNCIAS
 
O aspecto genético consiste em supor uma emergência e uma diferenciação progressiva das instâncias a partir de um sistema inconsciente que por sua vez mergulha suas raízes no biológico. “Tudo que é consciente começou por ser inconsciente”.
Uma outra origem para a constituição de um inconsciente seria um processo precoce de recalque o que leva Freud a postular, em um primeiro momento, um recalque originário, nos primórdios da vida da criança.
 
A SEGUNDA TÓPICA
 
A partir de 1920, Freud elaborou outra concepção da personalidade chamada abreviadamente: a segunda tópica. Esta foi escrita após Além do Princípio do Prazer, de 1920 e analisada amplamente no seu artigo O Ego e o Id, de 1923.
O motivo principal classicamente invocado para esta mudança é o fato de Freud perceber cada vez mais a importância das defesas inconscientes, o que o levou a abandonar a equação de recalcado com inconsciente e de ego com os sistemas pré-consciente e consciente.
O ego passa a ser uma parte diferenciada do id, por sua condição de ser o aparelho receptivo do mundo externo. Mas ele também contém uma parte inconsciente que constituirá o grande fator de resistência aos desejos do id. O id é puro desejo inconsciente e o ego é o grande cerceador da satisfação destes desejos. Já a resistência durante o processo de análise vem sempre do ego consciente. Esta distinção é facilitada na língua francesa pela distinção que nela existe entre dois egos: o je (real) e o moi (imaginário). O poeta Rimbaud diz: Le je c´est un autre, onde ele se refere ao ego inconsciente, aquele que tem realmente acesso à existência de pulsões e que define o caráter da pessoa, quem ela realmente é. Já o “moi” refere-se ao nosso Eu social, que tem um nome, idade, sexo, nacionalidade. Ao formarmos uma ideia de uma organização coerente dos processos psíquicos na pessoa, nós o denominamos o Eu da pessoa, seu ego. A este Eu liga-se a consciência e ele determina os acessos à motilidade. É a instância psíquica que exerce o controle sobre todos os processos parciais, que à noite dorme e ainda pratica a censura nos sonhos. Durante o processo de análise, o que foi posto de lado pela repressão dirige-se ao ego inconsciente, e é tarefa deste abolir as resistências que o Eu (moi) manifesta em ocupar-se do reprimido.
Mas uma das principais descobertas que levaram Freud à formulação da segunda tópica foi a caracterização do superego como fruto das identificações que a pessoa faz ao longo do seu desenvolvimento. A personalidade passa a ser o resultado das múltiplas identificações, a partir das parentais e, posteriormente, com todas as pessoas que foram alvo de investimentos libidinais. O ego abandona seus objetos amados ou investidos, mas os coloca dentro de si. Vejam, a grande diferença com a melancolia, é que nesta o objeto amado e perdido passa a ser odiado e toma o lugar do ego, como uma sombra que se derrama sobre a pessoa e a aniquila, tomando seu lugar.
Como vemos, o modelo desta nova tópica não é mais emprestado às ciências físicas, mas é completamente marcado pelo antropomorfismo: o campo intrassubjetivo tende a ser concebido segundo o modelo das relações intersubjetivas, os sistemas são representados como pessoas relativamente autônomas dentro da própria pessoa ( dir-se-á, por exemplo, que o superego se comporta de forma sádica para com o ego). Mas será sempre função do ego estabelecer a ordenação temporal dos processos psíquicos e submetê-los à prova da realidade e, através dos processos de pensamento, adiar uma realização instintual pois ele domina os acessos à motilidade. Mas, sendo a sede da angústia, ele teme o rigor do superego, que corresponde à autoridade e o ideal do ego, que é como ele encontra o caminho para comportar-se de acordo com a expectativa da autoridade. De outro lado, tem que subjugar o id, que é seu outro mundo exterior, e que o ameaça com a intensidade de sua força instintual. A psicanálise é um instrumento que deve possibilitar ao ego a conquista progressiva do id.
 
    CONCLUSÃO
 
Assim, enquanto na primeira tópica temos o inconsciente, o pré-consciente e o consciente, a segunda vai distinguir três instâncias: o id, o ego e o superego.
O id representa o polo pulsional da personalidade. O ego é aquele que decide sobre o que a pessoa vai fazer, ainda que ignorando a origem inconsciente de suas decisões. Ele é investido fortemente de libido, que Freud chamou de libido narcísica. E o superego é a instância que julga e critica e constituiu-se pela interiorização das exigências e interdições parentais e pelas identificações com objetos amados.
Esta nova concepção não coloca apenas em jogo as relações entre estas três instâncias; por um lado diferencia nelas formações mais específicas (ego ideal e ideal do ego, por exemplo) e faz intervir, por consequência, como já vimos, além das relações “intersistêmicas”, relações “intrassistêmicas”. Por outro lado, confere especial importância às relações de dependência existentes entre os diversos sistemas, e principalmente, a descobrir no ego, até nas suas chamadas faculdades adaptativas, a satisfação de reivindicações pulsionais.
Freud não renunciou a conciliar suas duas tópicas. Por diversas vezes apresenta uma representação espacialmente figurada do conjunto do aparelho psíquico em que coexistem as divisões ego-id-superego e as divisões inconsciente-pré-consciente-consciente.
No final de sua obra, em Esboço de Psicanálise, de 1938, temos uma exposição mais precisa desta tentativa.
Ribeirão Preto, 29 de julho de 2020

 
 
 
 
 

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