SETTING PSICANALÍTICO E SETTING PSICOTERÁPICO

Vamos começar por entender esta palavra inglesa “setting”.  Setting é uma expressão que designa um conjunto de características de um determinado local, seus rituais e seus objetivos. O setting terapêutico, por exemplo, tem por características: local ao abrigo de interferências sonoras ou de escuta, representando a necessidade de privacidade, número de pessoas que comporão o setting, horário pré-determinado para o encontro destas pessoas, objetivo específico de cuidar de um tema, atividade ou da dor física ou mental. Dentro desta definição poucas são as diferenças entre setting psicanalítico e psicoterápico. O psicólogo clínico irá, assim como o analista, receber o paciente com respeito, ouvindo antes de mais nada quais as razões que o levam a este encontro, e vai oferecer seus serviços profissionais apoiado nas aptidões que adquiriu durante sua formação profissional.

Até aqui estamos no campo das congruências. Mas o que diferencia o setting psicanalítico do setting psicoterápico?

O item diferenciador do setting psicanalítico é essencialmente a pessoa do psicanalista. Sua autoridade foi adquirida através de anos de rigorosa formação pessoal e teórica. Por isso dizemos que a dupla analítica funciona de forma assimétrica. O analista é o caçador do inconsciente, farejador daquilo que está cuidadosamente escondido, mantém uma atitude de acolhimento e de neutralidade, pois suas opiniões pessoais não devem interferir na investigação em curso.

Já o setting psicoterápico, que pertence à psicologia clínica tradicional, está focado em uma visão predominantemente consciente da mente. Orientações, conselhos, sugestões são oferecidos por alguém que desenvolveu uma personalidade com capacidade de auxiliar o outro, mas cuja formação teórica baseia-se em uma atuação no mundo externo.

Um psicólogo clínico dirá a seu paciente diante de sua dúvida em aceitar uma proposta de trabalho: “Vamos pensar: quais são as vantagens e desvantagens que este trabalho lhe oferece? Você tem vontade de aceitá-lo?”

Um psicanalista acreditará, por força de sua convicção teórica, que a questão a ser investigada não é a de aceitar ou não este trabalho, mas qual a angústia de escolher este e não outro e a dor do preço a ser pago pela escolha e, mais profundamente ainda, o que representa para ele, inconscientemente, aceitar o trabalho em questão. Seria a culpa de sobrepujar a imago paterna?  Vencer uma antiga rivalidade com um irmão ou amigo? Alcançar uma posição financeira que despertará inveja e, consequentemente, sofrimento a pessoas queridas? As fantasias podem ser múltiplas, e chegarem a um nível de conflito tão insuportável que a pessoa vai preferir recusar o trabalho. Mas a aceitação do mesmo e do desenvolvimento que ele representa, tornar-se-ão possíveis se ele puder dar à dupla formada por ele e seu analista tempo suficiente para trazer à luz as fantasias reprimidas, possibilitando a elaboração das mesmas.

Esta é a diferença fundamental entre o setting analítico e o setting psicoterápico. No psicoterápico o alvo é a realidade geográfica que nos envolve, onde circulamos, onde agimos. Evidentemente, a escuta interessada do terapeuta, a reflexão baseada no bom senso, serão sempre úteis para o desenvolvimento da saúde mental. Mas se acreditamos na existência de um inconsciente que, apoiado nas pulsões, dirige nossas ações sem que o saibamos, o campo da psicoterapia logo vai mostrar uma série de limitações.

Vamos pensar em uma pessoa que tem um transtorno obsessivo compulsivo. Ela não consegue tomar um banho em menos de duas horas, porque nunca se convence de estar totalmente limpa. O psicólogo, no setting psicoterápico, vai estudar com esta pessoa estratégias para diminuir o tempo do seu banho. Usando um relógio, fixar um tempo para cada parte do corpo, convencer-se de que três esfregadas já limparam o braço etc.

Esta pessoa, se buscar ajuda psicanalítica, será convidada a ser capaz de olhar para dentro de si e de perceber a violência de suas emoções expressas em seus rituais, sua luta nunca solucionada entre amor e ódio, seu sentimento onipotente de que se não se lavar suficientemente, sua sujeira irá prejudicar as pessoas amadas/odiadas. Enfim, terá que cuidar do seu animismo primitivo (crença no poder mágico do pensamento) e com o rigor de seu superego, estruturado muito mais fortemente pelo ódio do que pelos sentimentos amorosos e cuidadores.

São universos de atuação muito distintos. Lacan fala que nós nos movemos em três mundos: o imaginário, o simbólico e o real. O ego consciente vive no mundo imaginário. Ele é que dirige nossas ações dentro da realidade, mas uma realidade imaginária, carregada de projeções e de distorções. Mas é um falso eu, muito longe do verdadeiro eu que vive no inconsciente. Através do processo de simbolização, que culmina na conquista da comunicação verbal, aprendemos a pensar. Isto é, tornamo-nos capazes  de transformar emoções em palavras que as descrevem.  Enquanto ainda não tem representação não podem ser pensadas e elaboradas. Somente então atingimos capacidade para alcançar o verdadeiro eu, o motor de nossas ações, aquele que nos define e nos designa. Já o real é insuportável, é a “coisa em si” descrita por Kant sendo inatingível diretamente. É a verdade última, o Ó usado por Bion. Mas psicanalistas das mais diferentes orientações concordam em que a busca que dá sentido ao ser humano e a todo seu desenvolvimento, é esta busca da verdade. Enfim, a verdade de nossa natureza pulsional/reflexiva. Os impulsos, ligados à nossa estrutura biológica, tendendo sempre à satisfação imediata e o aparelho mental, capaz de criar pensamentos e simbolizações, dando condições de um tempo de latência entre  desejo e  ação.

Como o objetivo deste curso é introduzir o conhecimento da prática da psicanálise, permanecerei mais no setting psicanalítico. Usarei  um modelo proposto por Eva Migliavacca: “Breve reflexão sobre o setting”,de 2008, publicado no Boletim de Psicologia, nº129.  Neste artigo ela define o setting como  um método, uma técnica e uma ética.

 Vou falar um pouco a respeito destes três vetores. Mas não deixarei de insistir que o aspecto essencial que define um contato verdadeiramente analítico é a personalidade do analista. É ele que se constitui como uma moldura viva que propicia o percurso analítico, esta descida aos infernos (Dante), antes de poder subir não ao paraíso mas a uma vida mais plena de significado. Onde não há mais espaço para a miséria neurótica, na qual tragicamente se reúnem o lixo de valores humanos com o luxo da ostentação vazia.

Porque a definição do setting analítico é tão importante? Porque não há possibilidade de trabalho de análise sem este elemento protetor/continente das intensas vivências emocionais que nele ocorrem, muitas vezes experimentadas com grande sofrimento e desamparo.

Vamos falar do método pela união indissolúvel existente entre a teoria e a técnica. A técnica decorre diretamente das teorias, não se pode tratar de um tema técnico sem abordar os elementos teóricos que o sustentam. E isto vai definir o método como sustentáculo do setting.

                                                O MÉTODO

A definição de setting foi uma decorrência da consolidação da psicanálise como uma disciplina e uma prática. Para isso, tivemos inúmeros  profissionais que se dedicaram com genuíno interesse à investigação da vida mental, trazendo valiosas contribuições.

Porque preservar o setting é inerente ao trabalho de psicanálise, com sua relação peculiar do analista com seu analisando, caracterizada pelos fenômenos transferenciais. Na sua definição clássica, transferência é um termo que designa o processo pelo qual o paciente revive e reatualiza no vínculo com o analista, experiências emocionais vividas intensamente na relação com seus pais sem disso se dar conta. É um fac-símile, uma experiência quase alucinatória naquele momento da sessão, do que foi vivido na infância e não sofreu as elaborações necessárias para o caminhar para relações mais adultas.

Um exemplo comum desse fato é o desejo expresso pelo paciente de ser o preferido do seu terapeuta e de despertar nele afetos apaixonados, quando um adulto simplesmente se contentaria com um trabalho mais neutro e menos idealizado. Isso porque, na relação com o analista, evidenciam-se conflitos que nunca puderam ser acolhidos e que buscam uma possibilidade de elaboração. No setting, cria-se um campo de reconstrução de aspectos danificados do self e um campo de construção de condições internas para lidar com a própria vida psíquica.

Essa é a função terapêutica que está incluída no método: o acolhimento das projeções do paciente. O analista vai receber em seu inconsciente a projeção mais ou menos maciça destas vivências emocionais, e vai fazer um trabalho de representabilidade, ao transformar emoções antes sem representação possível em palavras, em algo pensável para o analisando. Aí este contido (o paciente) em busca de um continente (o analista) vai poder desenvolver capacidade de ser ele mesmo o continente das emoções agora toleráveis e prenhes de possibilidades criativas.

“Para que tudo isso seja viável, é necessário a moldura estruturante. Uma moldura clara, firme, consistente, rigorosa e amorosamente flexível.”

Essa moldura é o setting.

                                                A TÉCNICA

O setting implica também em arranjos práticos para a realização do trabalho. O esclarecimento necessário destes arranjos práticos é um dos pilares da moldura dentro da qual duas mentes vão desenvolver a investigação psicanalítica.

Quais são estes arranjos?

A sala: Deve ser o mais neutra possível, uma vez que ela constitui uma extensão do analista, este Outro que será alvo das projeções do mundo interno do paciente. Neutra e aconchegante, uma vez que este já estará bastante assustado com o que irá fazer, pois de nada sabe. Deverá ter um divã e a poltrona do analista situada atrás dele. O paciente deve ser convidado a olhar para dentro dele mesmo. O Outro representado pelo analista ficará fora de seu campo visual, em um lugar extremamente propício às projeções das fantasias a serem desvendadas.

Uma outra poltrona estará à frente da poltrona do analista, para as entrevistas contratuais. Às vezes é preciso esperar que a persecutoriedade diminua para que o divã seja usado. E a negação do uso do divã terá que ser trabalhada intensamente, pois é reveladora de aspectos paranoicos importantes.

Nesse sentido, Etchegoyen (1987) entre outros, destaca a constituição do setting a partir da combinação da proposta de trabalho com o paciente. Ambos assumem o compromisso de realizá-lo e são definidos os papéis de um e de outro, isto é, o paciente vem à sessão em busca de conhecimento de sua vida psíquica e o analista é o profissional que exercerá a função de apresentá-lo a ele mesmo.

Serão esclarecidos e determinados o local, os horários, a frequência e os honorários, a questão das faltas e das férias, de tal modo que ambos cheguem a um acordo mútuo. Será também esclarecida a preservação do sigilo por parte do analista. Estes arranjos, aparentemente simples, sobretudo honorários e frequência, despertam grande angústia naquele que se dispõe a enfrentar uma análise, pois ele terá que incluir em seu orçamento o pagamento ao analista e terá que dispor de parte do seu tempo para analisar-se. Mas estes custos são ainda menores diante do custo emocional, a angústia diante do desconhecido, e de iniciar algo que é sentido por ele como uma transgressão à sua forma habitual de pensar.

Sobretudo se pensarmos que a regra fundamental imposta pela análise, a de associar livremente, sem censuras ou julgamentos prévios, é contrária a tudo que aprendemos ao longo da vida, a todos os hábitos de nos conduzirmos em sociedade. Como soa artificial marcar hora, local e pagamento para conversas tão inabituais!  Se o paciente consegue passar esta primeira fase, o trabalho vai se transformando numa relação profundamente humana e de caráter transformador. Leopoldo Nozek comentou em uma de suas palestras que, se a análise, em princípio, é um processo extremamente longo, seus resultados já se fazem sentir a partir do primeiro mês de trabalho.

Não podemos deixar de insistir que o setting, sendo um conceito, introduz uma situação totalmente diversa de tudo que se faz normalmente, e é a condição para o trabalho da análise. Por isso, no conceito setting se inclui a consideração do que acontece dentro dele como sendo diferente de tudo que acontece fora dele. Tanto que, se o setting é quebrado pelo analista, os resultados são desastrosos com graves repercussões para a estabilidade interna e o equilíbrio mental do paciente. O analista deve usar de todos os recursos de sua personalidade para manter o trabalho de investigação e transformação de elementos irrepresentáveis, em elementos pensáveis. E é o grande responsável pela manutenção de um setting inventivo, corajoso, disciplinado, movido ao mesmo tempo a paixão e serenidade. Jamais quebrar o setting (contar fatos ou exprimir opiniões pessoais, exprimir sentimentos alheios à análise, sair da postura de neutralidade e de distância social). É um trabalho exigente e muito difícil. Mas a cada avanço, vem o sentimento de gratificação.

Assim sendo, o setting se revela muito mais pela internalização de uma certa postura do que propriamente em seguir regras.

 Chegamos agora a um outro ponto que sustenta igualmente todo o trabalho.

                                               A   ÉTICA

O setting psicoterapêutico também deve constituir-se  dentro da ética. O respeito aos valores mais nobres conquistados pela humanidade deve estar presente em todas as atividades societárias.  Não existe dignidade onde as condutas não são ditadas pelo seguimento das leis morais.

Porém, há uma ética do setting em psicanálise em função da qual se realiza o método e a serviço da qual está a técnica. De um ponto de vista de relacionamento humano, a ética na clínica psicanalítica inclui o respeito ao método, ao paciente e ao desenvolvimento pessoal. Esses três pontos estão intimamente ligados e sem eles teríamos apenas um amontoado de regras a serem rigorosamente seguidas, o que transformaria a beleza do trabalho clínico numa caricatura mal feita do que deveria ser.

De acordo com Freud, o grande centro ético da psicanálise é o reconhecimento da realidade psíquica e o amor à verdade. E porque não falar do amor que o analista precisa ser capaz de experimentar pelos seres humanos: a tolerância com suas misérias, com seus aspectos mesquinhos, perversos? Quanto caminho a percorrer para atingir esta capacidade!

Logo, o aspecto ético é tão importante porque sem ele a teoria é vazia, a técnica insuficiente.

Além disso, em todo conjunto de regras formais que constituem o setting, o alvo é o relacionamento humano que vai se desenvolver e para o qual são essenciais as condições pessoais do analista, com suas características de personalidade e o desenvolvimento do seu caráter. O cuidado do analista com a própria mente está, portanto, no âmago ético da atividade terapêutica.

Tendo atingido um desenvolvimento suficientemente bom, o analista estará preparado para acolher seu analisando: expressões pulsionais, conflitos, fantasias, angústias, necessidades, desejos, anseios, tudo que nele busca continência. E, além da continência, ao analista cabe a construção dos recursos internos do paciente, abrindo caminho através das palavras, em direção à elaboração e ao crescimento mental.

Finalizando, não há possibilidade de trabalho analítico sem o setting que o define. Pois é ele que sustenta o estabelecimento desta experiência emocional e o cuidado com a mesma. Nele se desenvolve o vínculo de profundo respeito nos momentos da eclosão de paixões e desejos transferenciais. Vínculo que será cuidadosamente protegido ao longo de todo tempo em que a dupla decidir empenhar-se na construção de novos e infinitos horizontes de conhecimento e desenvolvimento da vida mental.

Ribeirão Preto, 24 de junho de 2020

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